Você quer um abraço? - perguntei.
O menino me lançou um olhar irritado.
Eu o estava observando já havia alguns minutos.
Sempre havia crianças pobres ali e a maioria morava em prédios invadidos.
Mas este menino certamente morava na rua, concluí. Ele tinha uns gestos bruscos que oscilavam entre a auto-defesa e a agressividade. E fazia meses que seu corpinho não via água. Sua pele era negra, mas a poeira a deixava marrom. Aparentava ter uns cinco anos de idade.
Você quer um abraço?- repeti.
Ele voltou a me olhar, desta vez, meio desconfiado. Mas o meu tom de voz era doce e talvez ele tenha achado que o que eu oferecia não fosse assim tão ruim.
Ele não deve saber o que é um abraço, deduzi consternada.
Aproximei-me, abri meus braços e disse: venha me abraçar! Ele cedeu. Aproximou-se também e recebeu o meu abraço.
Pareceu gostar. Distanciou-se, hesitou um pouco e... voltou a me abraçar de novo.
E foi assim por alguns minutos. Ele se distanciando e vindo me abraçar repetidas vezes. Cada vez que ele me abraçava, ria mais um pouco.
Comecei a rodopiá-lo. Ele gargalhava como se estivesse num brinquedo no parque.
Meu Deus! - pensei. Como pode uma criança divertir-se assim com tão pouco? Afinal, era só um abraço o que eu estava oferecendo.
Percebi que sua mãe estava por perto. Era uma mulher visivelmente perturbada. Tomaram a sopa e se afastaram.
Nunca mais o vi.
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