Cheguei atrasada para a palestra. E muito irritada porque tinha perdido um grande tempo no banco tentando solucionar um problema que o próprio banco me criara. Apesar de estar indo assistir à palestra com uma tremenda má-vontade, detestei chegar atrasada, mesmo porque o tema era “ética”.
A palavra ética me faz lembrar o livro de Orwell, “1984”, que li há muitos anos atrás, precisamente em... 1984. Para quem não leu: o sistema de governo existente cuidou de criar uma nova língua da qual determinadas palavras simplesmente foram banidas. O objetivo pretendido era o de que, uma vez eliminada a palavra, seu conceito também fosse eliminado das mentes das pessoas. Por exemplo, se as pessoas não conhecessem a existência da palavra “liberdade”, consequentemente desconheceriam o seu significado e, portanto, seriam presas fáceis da dominação, sobretudo, por não incomodarem.
Neste país, ainda não conseguiram eliminar a palavra ética dos dicionários, mas que estão tentando deturpá-la, ah! isto estão ... Foi exatamente por esta razão que estava meio pessimista quanto ao que iria escutar: teorias... teorias...
Mas com cinco minutos de fala, o palestrante, um professor de filosofia que, à primeira vista, parecia um tanto quanto “nerd” demais, conseguiu me desarmar. E eu acabei por "arquear minhas sobrancelhas" - o que faço sempre que algo me desperta a atenção.
Mas não vou me prolongar aqui no tema ética. Vou me deter em um parêntese da sua fala: o momento de sua vida em que ele descobriu qual era a sua vocação, o que o fazia feliz.
Ele tinha doze anos e, até então, se sentia um tanto quanto desajustado em seu meio. Naquele dia, porém, chegara seu momento de expor um seminário que seu professor havia pedido uns dias antes para que cada um de seus alunos preparasse. Ele então discorreu sobre o tema petróleo por trinta minutos. E durante essa apresentação, percebeu que, finalmente, se sentia à vontade com o que fazia. Que estava realmente "curtindo" aquilo. E a recíproca era verdadeira, porque seu professor e os demais alunos, de tão maravilhados com sua exposição, pediram que ele a continuasse por mais trinta minutos. Ele aceitou prontamente.
Somente um mero detalhe a acrescentar: ele havia esgotado em sua primeira fala tudo o que pesquisara a respeito do tema. Mas como havia uma convergência de vontades: ele queria continuar ali falando e os demais presentes queriam que ele continuasse ali também, a segunda parte de sua apresentação foi... inventada.
Não conseguiria reproduzir aqui o que o palestrante narrou desta experiência - só posso adiantar que foi de "chorar de rir". Até nome tirado das estórias de rin-tim-tim ele tomou emprestado para denominar "substâncias existentes" nas camadas inferiores do subsolo... E ainda pediu para que seu professor tomasse nota...
E ele descobriu aos doze algo que, muitos anos mais tarde, mesmo chegando atrasada, eu iria constatar: realmente ele possuía o dom da oratória e do magistério.