terça-feira, 28 de julho de 2009

autonomia e dependência

Amanheceu. O branco do quarto no hospital começou a incomodar.

Como sempre, os pensamentos fluiam dialeticamente. Eles iam: pequenos planos, algumas idéias. Eles voltavam: uma torrente de lembranças recentes e outras não tão recentes. Eles alinhavavam o passado, o presente e o futuro, perscrutavam a realidade, imaginavam, ponderavam, concluiam...

O pequeno projeto matinal mais próximo era: levantar, tomar uma ducha e trocar de roupa. Mas no primeiro movimento para começar a executá-lo, o corpo fraquejou, a visão embaçou e tudo se tornou misteriosamente escuro.

A mente agitada foi abandonada pelo desfalecimento do corpo, que se acomodou na debilidade causada pela pneumonia, ficando inerte por alguns instantes. Um pouco mais tarde, o intento acabou sendo realizado, mas com a necessária ajuda de outros.

Dessa experiência, ficou o reconhecimento do descompasso existente entre a mente e o corpo em algumas situações.

sábado, 25 de julho de 2009

havia uns tanques no caminho de volta para casa...



Algumas fotos são carregadas de significados. A de cima, sem dúvida, é uma delas.

Talvez porque este chinês tenha realizado o nosso sonho secreto de vencer o sistema, mesmo que por alguns instantes.

Talvez pelo encanto de sua atitude, que conseguiu reunir substantivos díspares como ingenuidade: afinal, como poderia um homem armado com duas sacolas deter uma coluna de tanques de guerra? e coragem: mas que ousadia! tentar impedir com o seu corpo frágil estes tanques?

Talvez porque ele representasse o homem comum: teria ele feito compras em uma quitanda e se dirigia para sua casa, após um dia de trabalho, quando concluiu que poderia interromper a marcha de ignominiosos tanques de guerra que rumavam para a Praça da Paz Celestial com o objetivo de, mais uma vez, massacrar os estudantes que clamavam por um sistema de governo mais justo?

Quem era ele? Que fim levou? São contraditórias as respostas a estas indagações.

Mas que ele foi o nosso herói secreto, ah! isto ele foi.



Para quem quiser ver o vídeo, impressionante também, acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=OvA-blNvSgY

quinta-feira, 23 de julho de 2009

peste





Época de peste, ou melhor, de vírus...


Lembro-me do livro Decameron. Fugindo da peste bubônica na Idade Média, alguns jovens se exilaram, e, para passar o tempo, começaram a contar estórias, em sua maioria, eróticas. Nada que não pudesse ser exibido numa novela das oito de hoje em dia, diga-se de passagem.


No México, quando a epidemia da gripe suína esteve em seu auge, as ruas ficaram desertas... É, os mexicanos se recolheram tais como os personagens de Decameron.


Fico pensando. Hoje, se tivéssemos que nos refugiar por alguns dias dentro das nossas casas, diferentemente de contar estórias, teríamos outros passatempos: internet, joguinhos, conversas ao telefone, tv e, sobretudo, muito, muito trabalho para fazer em casa também.


Mas a variação nas modalidades de entretenimento não altera o sentimento em comum que nos liga aos nossos antepassados medievais: o medo.

sábado, 18 de julho de 2009

maluma e takete





O professor de linguística apresentou dois desenhos: um se chamava maluma, o outro takete. Pediu para que apontássemos qual desenho era o maluma, qual o takete. Sem pestanejar, repondemos que o sinuoso, com o formato de uma ameba, certamente seria o maluma. Já o com traços rudes, bruscos, seria o takete.

Satisfeito, ele disse que havia sido feita esta mesma pergunta a diversas pessoas falantes das mais variadas línguas e dialetos e todas haviam respondido da mesma forma.

Comecei a associar as línguas que já escutara, umas tão melodiosas e suaves, outras com os tons mais ríspidos. Todavia, segundo essa pesquisa linguística, até os falantes dessas línguas mais ásperas aos nossos ouvidos souberam distinguir o som mais agradável e apontar para o desenho que entenderam expressar essa harmonia.

O som da letra "l" e da "m" são brandos, macios, amenos e aprazíveis aos sentidos. Diferentemente do "t" e do "k" do exemplo dado pelo linguista - ao qual eu sem dúvida acrescentaria o "r" e o "z" - que nos soam um tanto quanto inarmônicos.

E lembrei-me de uma preocupação esquisitíssima que tive uma vez, quando estava conversando com um brasileiro, mas próxima a pessoas de diversas nacionalidades, em escolher as palavras que eu entendia como as mais suaves para que elas tivessem uma boa impressão do sonoridade do português. Não ousaria, por exemplo, pronunciar perto delas o termo carrapato e similares... (cada preocupação que já tive...)

Mas para o meu alívio, já ouvi de alguns estrangeiros que o português é uma língua suave e elegante.

Maluma, talvez?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

sem palavras

Nós três iríamos ler nossos discursos em homenagem a uma pessoa. Coincidentemente, estávamos sentados à mesma mesa. O discurso que a minha amiga preparara fôra carinhosamente apelidado por nós de "frankstein". Todos que queriam dizer algumas frases ao homenageado foram procurá-la com um texto rabiscado no papel, pedindo que fosse integrado ao seu discurso. E ela, pacientemente, costurou todos aqueles trechos, juntou com o dela e, o resultado final "caiu bem". O meu, era um discurso num tom intimista. E tinha o discurso dele, uma das pessoas mais brilhantes que já conheci. Eu não conhecia seu teor, mas sabia que seria um discurso espirituoso e inteligente, tal como seu autor. E não me equivoquei.
Hoje, passados alguns anos desta noite, lembro-me dele com saudades.
Ele possuía a sagacidade de poucos, a humildade dos sábios, a simplicidade dos grandes; sempre tinha a frase ironicamente perfeita para proferir em cada situação. Defendera grandes causas em Londres, em Paris, mas estava ali, sinceramente interessado em saber sobre a enxaqueca de alguém. Convivera com os grandes nomes, mas fazia questão de tratar os funcionários menos graduados por seus nomes.
E nos deixou repentinamente numa manhã de outubro. Retirou-se de cena tão delicadamente, como o cavalheiro que sempre fôra. Ficamos mudos, sem conseguirmos balbuciar palavras. Nem discursos.

terça-feira, 14 de julho de 2009

N Y C


Tenho um amigo poeta que escreveu um poema lindíssimo sobre não gostar de Nova York. Tivesse eu o dom dos versos (nem mesmo o da prosa eu possuo) e iria escrever um outro poema (provavelmente nada bonito) sobre gostar de Nova York.


Gosto dos prédios arranhando o céu. Do desfile de etnias na quinta avenida. De ver os nova-iorquinos correndo no parque, na ponte, nas avenidas, tão integrados à sua cidade. De bairros charmosos como o Soho. Das luzes da Brodway alertando que o show não pode parar. Dos museus lotados de adolescentes. Das omelettes preparadas nas "delis". Das feirinhas de quinquilharias. Das pessoas que, sem nem ao menos nos esbarrarem, já se antecipam em se desculpar.

É. Eu gosto de Nova York.


sábado, 4 de julho de 2009

sobre ética e vocação

Cheguei atrasada para a palestra. E muito irritada porque tinha perdido um grande tempo no banco tentando solucionar um problema que o próprio banco me criara. Apesar de estar indo assistir à palestra com uma tremenda má-vontade, detestei chegar atrasada, mesmo porque o tema era “ética”.
A palavra ética me faz lembrar o livro de Orwell, “1984”, que li há muitos anos atrás, precisamente em... 1984. Para quem não leu: o sistema de governo existente cuidou de criar uma nova língua da qual determinadas palavras simplesmente foram banidas. O objetivo pretendido era o de que, uma vez eliminada a palavra, seu conceito também fosse eliminado das mentes das pessoas. Por exemplo, se as pessoas não conhecessem a existência da palavra “liberdade”, consequentemente desconheceriam o seu significado e, portanto, seriam presas fáceis da dominação, sobretudo, por não incomodarem.
Neste país, ainda não conseguiram eliminar a palavra ética dos dicionários, mas que estão tentando deturpá-la, ah! isto estão ... Foi exatamente por esta razão que estava meio pessimista quanto ao que iria escutar: teorias... teorias...
Mas com cinco minutos de fala, o palestrante, um professor de filosofia que, à primeira vista, parecia um tanto quanto “nerd” demais, conseguiu me desarmar. E eu acabei por "arquear minhas sobrancelhas" - o que faço sempre que algo me desperta a atenção.
Mas não vou me prolongar aqui no tema ética. Vou me deter em um parêntese da sua fala: o momento de sua vida em que ele descobriu qual era a sua vocação, o que o fazia feliz.
Ele tinha doze anos e, até então, se sentia um tanto quanto desajustado em seu meio. Naquele dia, porém, chegara seu momento de expor um seminário que seu professor havia pedido uns dias antes para que cada um de seus alunos preparasse. Ele então discorreu sobre o tema petróleo por trinta minutos. E durante essa apresentação, percebeu que, finalmente, se sentia à vontade com o que fazia. Que estava realmente "curtindo" aquilo. E a recíproca era verdadeira, porque seu professor e os demais alunos, de tão maravilhados com sua exposição, pediram que ele a continuasse por mais trinta minutos. Ele aceitou prontamente.
Somente um mero detalhe a acrescentar: ele havia esgotado em sua primeira fala tudo o que pesquisara a respeito do tema. Mas como havia uma convergência de vontades: ele queria continuar ali falando e os demais presentes queriam que ele continuasse ali também, a segunda parte de sua apresentação foi... inventada.
Não conseguiria reproduzir aqui o que o palestrante narrou desta experiência - só posso adiantar que foi de "chorar de rir". Até nome tirado das estórias de rin-tim-tim ele tomou emprestado para denominar "substâncias existentes" nas camadas inferiores do subsolo... E ainda pediu para que seu professor tomasse nota...
E ele descobriu aos doze algo que, muitos anos mais tarde, mesmo chegando atrasada, eu iria constatar: realmente ele possuía o dom da oratória e do magistério.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

encontrei alguém mais lento do que eu de manhã!

Faço a curva fechada numa estradinha ladeada de árvores que desemboca na rodovia, indo apressada para o trabalho, e vejo um animal começando a atravessá-la.
Estranho como nosso cérebro reage ao que não é costumeiro. O animal se parecia com um cachorro poodle, mas o meu cérebro, apesar de uma certa confusão inicial, em centésimos de segundos reconheceu que não se tratava de um poodle. Fico imaginando os neurônios fazendo a associação da imagem que o olho capta com as imagens de outros animais devidamente catalogadas e armazenadas nas gavetinhas cerebrais. E descartando-as até chegar a uma conclusão - neste caso específico - que era um bicho-preguiça!!?
Parei o carro alguns metros antes dele, numa reação instintiva de proteção ao bichinho que tentava atravessar uma estrada, depois de uma curva, em seu ritmo devagar quase parando e, incrível ... achando que fosse sobreviver...
O que eu poderia dizer que senti? Bem, foi amor à primeira vista... Ele, além de ter um olhar amoroso, parecia sorrir. Senti-me tremendamente honrada e surpresa em saber que tinha vizinhos assim tão ilustres.
Pensei em uma forma de salvá-lo e que se danasse o horário. Não poderia deixar um bichinho tão lindo entregue à sua própria sorte.
Mas, digamos que ele, apesar de ser uma simpatia, não primasse muito pelo asseio: seus pelos são cobertos pelo que me pareceu ser um musgo verde, mas que mais tarde, procurando avidamente na internet saber tudo sobre a minha última paixão, descobri serem algas que servem de alimento para as lagartas de mariposa, suas amiguinhas íntimas...
Por sorte, um carro apareceu e eu acenei para que o motorista parasse. O condutor, assim que viu o bicho-preguiça, foi tomado pelo mesmo ardor pela causa que eu - este bichinho é mesmo um sucesso de público, devo reconhecer - e, com muita delicadeza, levou-o de volta ao seu habitat.
E eu fui trabalhar um pouquinho mais feliz.

Já que alguns raros amigos meus que são leitores deste blog reclamaram da falta de imagens (disseram que blog bom tem que ter muitas fotos e pouquíssimo texto...) vai aí uma foto da minha nova paixão.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

abraço

Você quer um abraço? - perguntei.

O menino me lançou um olhar irritado.

Eu o estava observando já havia alguns minutos.

Sempre havia crianças pobres ali e a maioria morava em prédios invadidos.

Mas este menino certamente morava na rua, concluí. Ele tinha uns gestos bruscos que oscilavam entre a auto-defesa e a agressividade. E fazia meses que seu corpinho não via água. Sua pele era negra, mas a poeira a deixava marrom. Aparentava ter uns cinco anos de idade.

Você quer um abraço?- repeti.

Ele voltou a me olhar, desta vez, meio desconfiado. Mas o meu tom de voz era doce e talvez ele tenha achado que o que eu oferecia não fosse assim tão ruim.

Ele não deve saber o que é um abraço, deduzi consternada.

Aproximei-me, abri meus braços e disse: venha me abraçar! Ele cedeu. Aproximou-se também e recebeu o meu abraço.

Pareceu gostar. Distanciou-se, hesitou um pouco e... voltou a me abraçar de novo.

E foi assim por alguns minutos. Ele se distanciando e vindo me abraçar repetidas vezes. Cada vez que ele me abraçava, ria mais um pouco.

Comecei a rodopiá-lo. Ele gargalhava como se estivesse num brinquedo no parque.

Meu Deus! - pensei. Como pode uma criança divertir-se assim com tão pouco? Afinal, era só um abraço o que eu estava oferecendo.

Percebi que sua mãe estava por perto. Era uma mulher visivelmente perturbada. Tomaram a sopa e se afastaram.

Nunca mais o vi.


a galinha que não queria os ovos de ouro

Minha irmã teve que sair. Deixou o sobrinho por minha conta. O garoto é daqueles que tem fogo nos glúteos... E eu, bem... eu não queria me mexer no sofá. Que fazer? - pensei eu desolada.
Ah! Já sei! Vou inventar uma estória.
E aí comecei a contar uma estória sobre uma galinha que queria ter pintinhos, mas não conseguia botar ovos.
Meu sobrinho começou a se interessar. Aproveitei para caprichar mais no enredo.
A galinha sofria e chorava pela falta de possibilidade de ser mãe. Foi procurar um médico. Este lhe disse que ela teria que se submeter a uma cirurgia de alto risco. A galinha não se importava. Queria a todo custo ser mãe. Marcou a cirurgia.
Meu sobrinho atento, nem se mexia no sofá...
A cirurgia foi realizada. A galinha demorou a se recuperar. Quando finalmente se restabeleceu, dirigiu-se ao ninho e... botou um ovo.
Vislumbrei um sorrisinho de alívio no garoto. Mas minha irmã ainda ia demorar e eu não podia dar um desfecho naquela estória tão cedo... Precisava mantê-lo quieto.
Mas o ovo era... de ouro!? A galinha ficou horrorizada. Eu não quero um ovo de ouro! Eu quero os meus pintinhos! - gritou desesperada.
As galinhas vizinhas vieram ver o que estava acontecendo. Ao saberem da notícia, tentaram consolá-la: - Você tem que ver o lado bom da situação! Esses ovos de ouro que você botará serão valiosos! Você vai ficar milionária se vendê-los.
Mas a galinha estava determinada... Não queria os ovos de ouro. Queria seus pintinhos!
Olhei para o meu sobrinho de soslaio. Ele estava apreensivo com o desenrolar dos últimos acontecimentos na estória. Vou ter que dar uma virada no rumo, pensei. Esse é o lado bom de ser a dona da estória. Existe a possibilidade de se adaptar o enredo conforme a resposta do público. O público, no caso, era o meu sobrinho que, nesta altura, estava totalmente imerso no drama da galinha, com o semblante triste.
Antes que a minha consciência começasse a pesar, providenciei uma outra consulta no médico da galinha.
Este, após examiná-la, concluiu que podia fazer uma nova cirurgia. E a galinha se dirigiu para a clínica esperançosa com a nova possibilidade de ver o seu sonho se realizar. E para a sua total felicidade, depois da cirurgia, ela rumou novamente para o seu ninho, e botou ovos! Ovos de verdade!
Meu sobrinho abriu um sorriso...
E a galinha ficou chocando seus ovos toda orgulhosa esperando o dia em que os pintinhos iriam nascer. E este dia chegou. A galinha se desfez em lágrimas. Oh! Meus filhinhos como agora sou uma galinha feliz. Vocês são o meu tesouro, são mais preciosos e valem muito mais do que ouro para mim, blá blá blá...
Meu sobrinho se emocionou. Lágrimas desceram pelo seu rostinho. Oh Tia, essa estória é muito triste....
Minha irmã chegou. Oba!


P.S. O meu sobrinho ficou tão encantado com a estória que a repetiu - ele mesmo - para a sua mãe. E voltou a ficar com os olhos marejados quando contou o final...