Outro dia desses, um grande amigo e colega, assim que chegou ao trabalho, veio me contar o que tinha lhe ocorrido:
“ Hoje, quando eu vinha para cá, vi um mendigo e o seu cão dormindo na rua. Então, uma pessoa veio e entregou-lhe um saco de pão. O mendigo, para o meu espanto, deu o primeiro pedaço para o cachorro e só depois é que comeu. Eu me lembrei de que a minha esposa tinha me falado sobre uma escritora que sai às ruas para ter assunto para escrever em suas crônicas diárias. Seria bem interessante se ela tivesse presenciado essa cena do mendigo. Ela teria o que escrever”.
Ele foi para a sua sala e eu fiquei pensando... Fazia muito tempo que não escrevia. Aliás, com exceção de textos técnicos, não escrevia desde os tempos de redação do colégio. De qualquer forma, na hora do almoço, postei-me em frente ao computador, escrevi o texto abaixo, e enviei-o para o seu endereço eletrônico. Foi muito divertido ver a sua expressão quando veio me falar da crônica...
Típica manhã cinzenta de inverno no centro de São Paulo. Estava frio. Especifico, pois, nestes tempos em que a estação do ano não pode mais ser identificada pelo clima, a redundância é justificável. Caminho para o trabalho. Sigo apressado, no ritmo da cidade. Um pouco mais a minha frente, vejo um mendigo embrulhado em um cobertor: destes que já fazem parte da paisagem urbana e não despertam mais tanta compaixão. Não era um mendigo solitário, reparo. Deitado ao seu lado, um cachorro lhe faz as vezes de amigo, de ente familiar ou daquela bola Wilson do náufrago, não sei ao certo. Vejo uma pessoa se aproximar, entregar-lhe um pacote e rapidamente se distanciar. Diminuo o passo. Puro reflexo da curiosidade a se aguçar. O mendigo abre o pacote: dentro, pequenos pães de queijo. Ele se ajeita, pega o primeiro e o oferece à sua companhia. O cachorro se espreguiça e começa a cheirar o pão, dando a impressão de que poderia não se interessar. Mas, após o olfato aprovar, acaba comendo, mastigando compassadamente. Só depois é que o mendigo se serve. Neste momento, já não tenho mais ângulo para observá-los. Sigo adiante: tenho que chegar a tempo ao trabalho e não posso mais dar atenção a dois seres abandonados que se encontraram na rua.
“ Hoje, quando eu vinha para cá, vi um mendigo e o seu cão dormindo na rua. Então, uma pessoa veio e entregou-lhe um saco de pão. O mendigo, para o meu espanto, deu o primeiro pedaço para o cachorro e só depois é que comeu. Eu me lembrei de que a minha esposa tinha me falado sobre uma escritora que sai às ruas para ter assunto para escrever em suas crônicas diárias. Seria bem interessante se ela tivesse presenciado essa cena do mendigo. Ela teria o que escrever”.
Ele foi para a sua sala e eu fiquei pensando... Fazia muito tempo que não escrevia. Aliás, com exceção de textos técnicos, não escrevia desde os tempos de redação do colégio. De qualquer forma, na hora do almoço, postei-me em frente ao computador, escrevi o texto abaixo, e enviei-o para o seu endereço eletrônico. Foi muito divertido ver a sua expressão quando veio me falar da crônica...
Típica manhã cinzenta de inverno no centro de São Paulo. Estava frio. Especifico, pois, nestes tempos em que a estação do ano não pode mais ser identificada pelo clima, a redundância é justificável. Caminho para o trabalho. Sigo apressado, no ritmo da cidade. Um pouco mais a minha frente, vejo um mendigo embrulhado em um cobertor: destes que já fazem parte da paisagem urbana e não despertam mais tanta compaixão. Não era um mendigo solitário, reparo. Deitado ao seu lado, um cachorro lhe faz as vezes de amigo, de ente familiar ou daquela bola Wilson do náufrago, não sei ao certo. Vejo uma pessoa se aproximar, entregar-lhe um pacote e rapidamente se distanciar. Diminuo o passo. Puro reflexo da curiosidade a se aguçar. O mendigo abre o pacote: dentro, pequenos pães de queijo. Ele se ajeita, pega o primeiro e o oferece à sua companhia. O cachorro se espreguiça e começa a cheirar o pão, dando a impressão de que poderia não se interessar. Mas, após o olfato aprovar, acaba comendo, mastigando compassadamente. Só depois é que o mendigo se serve. Neste momento, já não tenho mais ângulo para observá-los. Sigo adiante: tenho que chegar a tempo ao trabalho e não posso mais dar atenção a dois seres abandonados que se encontraram na rua.